Papel em branco. Rabisca, rabisca, nada sai.
Tenta ir pro computador. Pensa, pensa... digita, digita, apaga.
Toma café, atende cliente, fuma um cigarro, tenta de novo.
Nada. Nadinha. Zero.
Lembra, que, como diz o sábio Hemingway, é preciso sentar e sangrar.
E eu sempre sangrei tão bem... Tão fácil, tão natural. E na maioria das vezes doeu, como toda ferida aberta que só pára de desesperar quando estanca. Isso não quer dizer que pare de doer ou a cicatriz não incomode, só quer dizer que o pavor de ver tudo vermelho ameniza. Fica, no lugar, um dolorido profundo, latente.
Sempre usei das letras como um grito, válvula de escape e linha de costura, pra pontilhar a pele e aproximar as bordas da tristeza. Pra trancar ela num lugar menos exposto, mais distante dos olhos. Porque é um comportamento constante meu, doer mais quando vejo, quando penso, quando lembro.
Mas eu percebi, recentemente, que quando muito me dói, me dói mais ainda escrever. Talvez porque a escrita me obrigue a ver, pensar e lembrar. E, nestes casos, ela de grito passa a ser o que me faz torturar. Então eu engulo. Engulo pra ver se some sozinho, se milagrosamente o que passou se transforma em algo que, na verdade, nunca aconteceu.
Eu sei sobre o que eu preciso escrever. Eu sei o que preciso deixar correr, sei que a cura vai se iniciar no momento em que eu deixar desaguar toda essa água vermelha presa nas veias, nos pulmões, no coração, em cada pedaço do corpo e da alma. Mas só de pensar em pensar, dói. E dói mais a sensação agonizante de achar que nunca conseguirei pensar. E estremece o corpo todo perceber que, evitando deixar a mente desabafar sobre a culpa, o medo, a tristeza, o desespero, acabo evitando o desabafo sobre a saudade, a felicidade, as boas lembranças, o carinho e o calor. E estes, estes eu me proíbo de esquecer. Me proíbo de deixar esvair, me proíbo de proibir. Proíbo que todo esse mar de dor afogue o amor, que é dos maiores que se pode ter na vida.
Eu vou escrever, sei que vou. Vou escrever pra liberar a barreira que impede que eu lembre com carinho. É só que a culpa é tão grande, que esmaga todo o resto.
Tem dia que até a vontade de sair da cama é esmagada.
terça-feira, 24 de maio de 2016
quarta-feira, 13 de abril de 2016
A gente não sabe o quanto as mãos precisam escrever até que falta o ar no pulmão e ele só volta com a caneta entre os dedos.
Poeta nunca serei, nem sei se quero vir a ser.
Quando leio poesia, elas são absorvidas por minha pele; cada letra vai direto para as veias. A corrente sanguínea quase entope com as vírgulas, os pontos, os espaços. Porque no silêncio também há poesia.
Quando bem colocado, aliás, o silêncio pode ser o que dá vida ao escrito.
Mas a questão é: o que leio vai direto ao coração. Eu não acredito que a gente sinta com o coração, acredito que a gente sinta com o cérebro. Quando penso em você, por exemplo, a boca abre um sorriso quase-que-automático. Ora, isso não é obra do coração, é obra do cérebro.
Mas quando eu estou envolta em seus braços, olhando em seus olhos, o processo é parecido com aquele que acontece quando leio: a vida muda um pouquinho. As coisas ao redor tomam outras formas, o pensamento tem seu fluxo alterado, as cores ficam mais intensas, algumas coisas perdem o sentido na mesma velocidade com que outras ganham, inúmeras sensações e sentimentos se debruçam sobre a pele, a barriga, a boca, a cabeça, cada célula.
Isso não é sentimento, não. Isso perpassa o sentimento. O sentimento é aquela coisa que todo mundo diz, que todo mundo acha, que todo mundo tem. O que um poema me causa é a abertura pra um outro universo, é um abraço em forma de papel, que passa os braços por meus ombros e abre minha mente. Uma expansão tão intensa que é impossível voltar ao tamanho normal. Tamanho esse que sempre parece risível quando olho pra trás, depois de um verso, um parágrafo, um livro. Ou depois de um abraço teu.
E é por isso que não quero ser poeta. E nem quero ser pra alguém o que você é pra mim.
Porque é perigoso o (seu) poder de um poeta.
É uma expansão maravilhosa, mas sem volta.
E quando o livro se fecha ou você fecha a porta, eu fico ali, com novas palavras e novos momentos, que exigem de mim um esforço descomunal para não deixar que virem apenas memórias perdidas nesse meu eu expandido.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Perdi toda a coragem
Quando te vi ao longe,
acenando.
Dizendo até logo, sem saber que era
adeus.
Perdi toda a coragem de continuar
De prorrogar a farsa, a falsa liberdade, a falta de apego...
Ora, se não houvesse o apego, se não houvesse o fogo, se não houvesse o amor,
Não mais estaria aqui. Estátua. Cansada do repetido não, do repetido abandono.
adeus.
Me vou, mas não carregue a culpa.
.Culpa minha. Eu quem me debrucei nessa liberdade da qual
NÃO me libertei.
Me perdoa.
Perdoa, porque eu te fiz acreditar que alimentava o saudável. Mas minhas raízes, por mais espaçosas que sejam, possuem limites.
Um deles, acabei de alcançar.
Então perdoa, porque não posso mais crescer em seu jardim. Mas tua terra, é fértil.
E dela nascerão outras tantas árvores, com raízes menos limitadas.
Quando te vi ao longe,
acenando.
Dizendo até logo, sem saber que era
adeus.
Perdi toda a coragem de continuar
De prorrogar a farsa, a falsa liberdade, a falta de apego...
Ora, se não houvesse o apego, se não houvesse o fogo, se não houvesse o amor,
Não mais estaria aqui. Estátua. Cansada do repetido não, do repetido abandono.
adeus.
Me vou, mas não carregue a culpa.
.Culpa minha. Eu quem me debrucei nessa liberdade da qual
NÃO me libertei.
Me perdoa.
Perdoa, porque eu te fiz acreditar que alimentava o saudável. Mas minhas raízes, por mais espaçosas que sejam, possuem limites.
Um deles, acabei de alcançar.
Então perdoa, porque não posso mais crescer em seu jardim. Mas tua terra, é fértil.
E dela nascerão outras tantas árvores, com raízes menos limitadas.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
É difícil.
É difícil se manter em equilíbrio em um mundo desequilibrado como o nosso.
A esperança se esvai em um piscar de olhos.
Não me culpo por meu existencialismo e minhas crises existenciais.
É difícil se manter são diante de tanta barbárie.
É difícil se manter são.
É difícil se manter.
É difícil.
É difícil se manter em equilíbrio em um mundo desequilibrado como o nosso.
A esperança se esvai em um piscar de olhos.
Não me culpo por meu existencialismo e minhas crises existenciais.
É difícil se manter são diante de tanta barbárie.
É difícil se manter são.
É difícil se manter.
É difícil.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
As vezes, despimos algumas pessoas.
Tirei, por um segundo, todo o pano
Que te cobria,
Intencionada a não cobrar
Mas sim
Des-cobrir, re-des-cobrir.
Me dispus a despistar
As lembranças doídas
Que dominam sua mente e
Seu peito
Suspeito
Que eu possa ser
Posteriormente
Uma delas.
Não, não há intenção de doer,
Não há intenção de ser lembrança.
Mas, há algumas pessoas
Que nos despem
E, despida, me despeço.
Não há intenção de doer,
Mas dolorida é a sensação
De estar nua,
Crua
Tua
Enquanto o que te cobre
Ainda e até-não-sei-quando
São as doidas lembranças dela.
Tirei, por um segundo, todo o pano
Que te cobria,
Intencionada a não cobrar
Mas sim
Des-cobrir, re-des-cobrir.
Me dispus a despistar
As lembranças doídas
Que dominam sua mente e
Seu peito
Suspeito
Que eu possa ser
Posteriormente
Uma delas.
Não, não há intenção de doer,
Não há intenção de ser lembrança.
Mas, há algumas pessoas
Que nos despem
E, despida, me despeço.
Não há intenção de doer,
Mas dolorida é a sensação
De estar nua,
Crua
Tua
Enquanto o que te cobre
Ainda e até-não-sei-quando
São as doidas lembranças dela.
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