O não-perdão calado toma forma de angústia
O coração desabotoado é porta de visita
Recebe medos, acasos, apertos
Se força a validar o que não tem valor
Perde força em meio a tantos sufocos
A casa existe, o botão não se achou
Procura abrigo em outra pulsação
Rasga o peito gritando socorro
Socorre na noite o que não tem remédio
Remedia os laços, reforça nós
Procuro, encontro, mas se encontro corro
Me atenho ao imutável, ao tédio
Entediado percebo: estamos todos sós
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Tão rápido quanto a lua vira sol, me tornei tua.
Nua, deitada em teus lençóis brancos e paralisada por teu sorriso brando, me entreguei ao teu bel prazer.
Mas, é como diria Drummond:
"(...) o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será."
Então sossegue, Maria.
Poderão vir as bodas, assim como poderão ficar na imaginação.
Mas isso nunca foi impedimento para esse coração romântico que vos fala: independente das intempéries do futuro incerto, muito me faz feliz reservar-me toda àquele que leva consigo um pedaço de mim.
A caminhada melancólica e vertical assim o é apenas para os que não enxergam em qualquer amor sua profundidade, beleza e poder de combustível.
Que me perdoe, agora, Drummond: o amor, no escuro ou no claro, no real ou no imaginário, na certeza ou na incerteza, não deve ser triste, não deve doer. Deve ser a coisa mais sutil e alegre, dentre todas as coisas que podemos viver.
Portanto, enquanto há essa chama sua acessa em mim, lembrarei de cada segundo e fantasiarei outros mais, com um peito lotado de barulhos e sensações inefáveis, que a mim só se traduzem em: continue amando com toda a alma, pois é razão de ser e de viver o verbo sempreamar, o verbo pluriamar.*
Nesses casos, volto a concordar com Drummond:
"(...) amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido."
"Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários."
Amemos, amemos muito. Não há salvação para nós, que não o amor.
*Além da Terra, além do céu - Carlos Drummond de Andrade.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
E guardou para si muitas palavras. Evitou o confronto, preferiu calar e chorar baixinho.
Cada frase que não dizia era um nó na garganta. De tanto nó, quebrou-se o nós.
O não dito se acumula, vai lotando o peito, a boca, a alma. Entristece, enraivece, enlouquece.
Mas nosso corpo e nosso espírito tem um limite não muito grande no que se refere a isso.
Cabem, em nós, poucas dessas amarguras do eu-deveria-ter-dito-isso. A gente incha, infla, lota, transborda.
E num momento qualquer, despretensioso, numa tarde fria, a gente explode. E por vários e longos minutos, diz palavra por palavra, dessas que a gente tanto calou. Parece que perdemos momentaneamente o auto controle e elas simplesmente pulam da boca. Com o perdão da expressão, a gente vomita tudo o que engoliu à força.
E se sente, em certa medida, leve. E essa leveza é essencial para não morrer afogado por letras impedidas de sair. A grande questão é: quando a gente engole, acumula e explode, não seleciona e não controla as sentenças. Sai tudo misturado, com pitadas de raiva, tristeza e decepção - inclusive consigo mesmo.
Não há tempo de digerir antes de colocar pra fora. As chances de mágoa são aumentadas exponencialmente. Portanto, um conselho amigo de quem muito guarda colóquios: mesmo quando a conversa vai doer, menos dolorida é a dor das palavras não guardadas.
Acreditem, não é pouco o número de nós que eu quebrei por achar que meu corpo absorveria o que eu precisava falar.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Muito vem e
vai.
Do pouco que fica
Tiro tudo o que posso
Aquilo que se
despede
Também fica em mim.
Absorvo detalhes,
dou um pouco de mim
a TUDO
o que cruza
o meu caminho.
Quem se foi,
Talvez,
Não volte nunca mais.
Quem chega,
Talvez,
Não queira ir nunca mais.
Não importa a quantia de tempo:
Importa o que
REPRESENTA.
vai.
Do pouco que fica
Tiro tudo o que posso
Aquilo que se
despede
Também fica em mim.
Absorvo detalhes,
dou um pouco de mim
a TUDO
o que cruza
o meu caminho.
Quem se foi,
Talvez,
Não volte nunca mais.
Quem chega,
Talvez,
Não queira ir nunca mais.
Não importa a quantia de tempo:
Importa o que
REPRESENTA.
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