quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

E guardou para si muitas palavras. Evitou o confronto, preferiu calar e chorar baixinho.
Cada frase que não dizia era um nó na garganta. De tanto nó, quebrou-se o nós.
O não dito se acumula, vai lotando o peito, a boca, a alma. Entristece, enraivece, enlouquece.
Mas nosso corpo e nosso espírito tem um limite não muito grande no que se refere a isso.
Cabem, em nós, poucas dessas amarguras do eu-deveria-ter-dito-isso. A gente incha, infla, lota, transborda.
E num momento qualquer, despretensioso, numa tarde fria, a gente explode. E por vários e longos minutos, diz palavra por palavra, dessas que a gente tanto calou. Parece que perdemos momentaneamente o auto controle e elas simplesmente pulam da boca. Com o perdão da expressão, a gente vomita tudo o que engoliu à força.
E se sente, em certa medida, leve. E essa leveza é essencial para não morrer afogado por letras impedidas de sair. A grande questão é: quando a gente engole, acumula e explode, não seleciona e não controla as sentenças. Sai tudo misturado, com pitadas de raiva, tristeza e decepção - inclusive consigo mesmo.
Não há tempo de digerir antes de colocar pra fora. As chances de mágoa são aumentadas exponencialmente. Portanto, um conselho amigo de quem muito guarda colóquios: mesmo quando a conversa vai doer, menos dolorida é a dor das palavras não guardadas.


Acreditem, não é pouco o número de nós que eu quebrei por achar que meu corpo absorveria o que eu precisava falar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

E brota, de dentro desse jardim de sangue e alma, a felicidade que pele nenhuma pode podar.
Muito vem e
vai.
Do pouco que fica
Tiro tudo o que posso
Aquilo que se
                       despede
Também fica em mim.
Absorvo detalhes,
dou um pouco de mim
a TUDO
o que cruza
o meu caminho.
Quem se foi,
Talvez,
Não volte nunca mais.
Quem chega,
Talvez,
Não queira ir nunca mais.
Não importa a quantia de tempo:
Importa o que
REPRESENTA.

A gente espera muita coisa da vida. A gente marca coisas, faz planos, paga com antecedência, brinca constantemente de previsão de futuro.
Nos permit[im]os muito pouco a experiência da surpresa, dos atos sem roteiro, de não estar sobre o controle de tudo.
Mas devemos deixar a vida correr seu curso natural, com a mín[im]a interferência dessa mania de previsibilidade, pois algumas [im]previsibilidades podem mostrar que a vida é muito mais que os planos que traçamos para ela.
Ela é um fluxo ininterrupto, contínuo, fluido e surpreendente de acontec[im]entos. Ora tristes, ora felizes.
Como o espectro de um [im]proviso de guitarra, ela tem seus altos e baixos, que se delineiam ao bel prazer do músico, que sabe, no fundo da alma, o que cabe ao som.
A vida sabe o que cabe a nós. E reserva notas e acordes incríveis. Mas devemos estar de ouvidos atentos para gravá-los e, mais do que isso, dançarmos ao som dessas deliciosas [IM]presivibilidades.
Deixemos a vida soar como um free jazz, longe das amarras teóricas, sem regras, com a ansiedade de saber que o que está por vir é único.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Que eu possa
                     discorrer
Palavras no canto
              do seu
ouvido
Que eu possa
                     escorrer
O suor
             do teu
alívio
Que eu possa
                     escorregar
Minhas mãos
              em tua
boca
                         em tua
        nuca
                                    em teus
                ossos
                                                em tua
                          alma
Com calma
                  Solidificar o laço
Secar tuas lágrimas
Te deixar nu
                  Vestido de amor